Hoje eu fui -

Revirei as coisas do meu quarto de hora e não te achei. Procurei nas ruas dos cálices onde tu sempre esteve, e além de não te encontrar, me perdi. Eu quis dizer aquela hora, naquele quarto, quarto de hora, que não era hora. E tu fostes embora.
Eu quis dizer, Calma. Porque tua fragrância sonora, abduziu minha cólera e eu fui cair ao pés da tua parte de trás. Eu venci.

Eu queria que você dissesse a ela que você já me amou. Mas que você não me esqueceu. E depois eu quero que você sorria e grite que era mentira. Tudo voltará ao normal, como se não tivesse saído de lá.E ela te abraçará.



- dislexo.
semNexo.
ao inverso.




Im
[próprio] ao momento.


Encontrei teu corpo morto, na rotina do sono dos justos, mãos e pernas espalhadas pelos quatro cantos do sofá. A figura do rosto desfeito, de cabelo nos olhos, de batom no queixo. O vestido que mostrava as coxas grossas, de pêlos dourados correndo no campo torneado da pele alva. Desliza a palma da mão da canela ao joelho, do joelho à bunda, à virilha.
Um pedaço de tecido entre os dentes, deslizando sobre o pescoço, e os seios ficam nus. O mamilo, artigo indefinido de uso impróprio. Banhado de saliva, que repousa quente na pele que sente os poros da língua bandida. Que ao som dos tiros dos dedos, como em toques de violão, sequestram o sono pedindo gemidos por resgate.
Desenha-se um rastro de cobra com a boca, estando as mãos firmes nos ossos da cintura, e então definitivamente acordas com a pressão da minha língua em teu sexo - e o primeiro gole de ar que tomas, profundo, é seguido das mãos que se agarram à minha nuca. Mãos desesperadas são as que habitam tuas coxas e movimentos rápidos tem os lábios. Contra lábios. Muito molhados, m doces que são, chocolates róseos e quentes.
Silêncio, respiração ofegante, olhos nos olhos, pensamentos boquiabertos. O pau entra rasgando. Milimétrica e sensivelmente. Até o fim da noite você começa a me amar.

Vestígios


Você deixou seu cheiro na porta - e eu só queria piedade - que divide o aroma de teu dorso com os cheiros tantos do corredor da rua, o vazio da imensidão que separa o íntimo do genérico. Que separa teu colo do asfalto.

Você foi-se, como sempre, mas o cheiro ficou na porta - que naquela noite assistiu a casa receber-me apaixonadamente com um buquê de flores. Os aromas eram tantos e vinham do seu tempêro, da sua malícia.Eu te admirei e te admiro ainda. O que tem de ti ali é a única prova viva de que você viveu e que foi feliz comigo uma noite qualquer em que eu me apaixonei novamente por você como sempre deveria ter-me apaixonado. E o amor não, mas a paixão é assim, excêntrica, compra flores e tem esperança; guarda cheiros, reinventa.

Meus olhos consumiram, através das mãos que percorriam a seda azul, teu corpo trêmulo e seco, teus olhos que só me enxergam quando se fecham e quando repousas as mãos em meu pescoço.

Se eu enxergo tua alma com um beijo é porque quero tirar-te a razão quando te abraço nu,

redesenho o sabor da tua boca, do teu peito e sexo. Refaço o caminho no qual te despi, e quero piedade. Tenho testemunha, e ela hoje abriga teu perfume.

Tem um vazio de adaga assassina onde ontem tinha corpos ofegantes, onde bebi teu corpo nu como o antídoto do meu pecado maior que foi te amar e não saber como.

E te perdi e não sei como.E se não fosse hoje o teu resto de corpo num resto de casa, não me veria nua, ante o espelho, e aquela gota de vinho que queria ser sangue escorrendo dos meus lábios, que eram muito mais sal de lágrima do que o sumo da uva.

Se pensas que todo o amor
que podes ter por alguém
pode superar o que nutrem por ti
por certo não aprendestes a amar
ou desconheces quem te ama.

Tinha feito planos para o final de semana - foi quando morri.

Fiz as malas na sexta-feira à noite, depois que cheguei do trabalho. Peguei só o que caberia na pequena valise, a escova de dente enfiei no bolso da calça. Listei o que tinha que fazer num guardanapo meio sujo, babado de vinho, enquanto ouvia James Blunt. Tomei um banho e fui dormir. Quando acordei estava morta, sobre a cama, só de calçinha. Jeito tosco de se morrer, eu pensei. As unhas por fazer, o cabelo bagunçado. Deitada, fiquei me analisando, naquele ângulo diagonal. Cm por cm de pele desnuda, coxa por coxa, braços,fui vendo destroçada, sem cor, um saco de ossos sem sentido. Eu tinha feito planos para o final de semana, pôxa. E agora estou morta! Quem é que vai me achar aqui, nessa manhã fria de sábado? Eu comprei as passagens para as sete e quinze da manhã - a essa hora o avião já está na pista. Às dez e quinze vão ver que não cheguei e vão esperar o último passageiro descer. Só quando o avião decolar de novo é que vão ter certeza de que eu não fui. E aí, o que eles vão fazer? Vão ligar pra cá. Ninguém vai atender, eles vão insistir. Mandarão e-mails, ficarão preocupados... mas não serão capazes de vir atrás de mim. Aquela dúvida sobre o sumiço permanecerá dois dias na cabeça, até que alguma coisa terrível vai acontecer e eles me esquecerão aqui, morta. Segunda-feira eu não vou aparecer pro trabalho. Até o meio-dia vão falar mal de mim pelas costas. Depois da uma e meia da tarde e da continuação do meu sumiço, vão começar a se olhar. Três da tarde o gerente vai ligar pro meu celular. Vai ser a décima quinta chamada não atendida. As quatro e meia o gerente vai falar com o chefe. Ele vai mandar alguém atrás de mim, vai bater aqui em casa. Ele vai pensar que não tem ninguém e vai embora, dizendo pro chefe que eu devo ter enlouquecido,”não batia bem da cabeça mesmo”, pegado as coisas e fugido pra Ciudad Del Mexico. Vão estranhar que ligaram perguntando de mim e ninguém me viu no final de semana. De noite, tenho quase certeza, o Lucas vai bater aqui em casa,ele sim vai xeretar,perguntar para os vizinhos, chamar o síndico, não vai descansar. Catar chaveiro, abrir a porta e pimba!, vão me achar aqui, morta, só de calçinha.

O problema é que hoje é sábado, sete e trinta da manhã, e isso tudo só vai acabar segunda-feira, lá pelas oito da noite. Até lá,Ele já me excomungou, me largou para as cachorras, desistiu de tudo.Já estou vendo entrar em casa revoltado, passar reto pela sala e bater a porta do quarto.O Luís é assim, trata o coração a ferro. Não vai me ligar, eu sei. Vai imaginar que estou com outro. Já que moramos longe, eu tenho como dar minhas escapadas.Quando me liga, a primeira coisa que pergunta é onde estou. Tenho pavor disso, mas nunca falei. Agora, ironicamente, gostaria muito de falar e não posso. Estou morta, só de calçinha. A cabeça do Luís é assim; ele vai ficar puto, vai me profanar, me endiabrar a alma, juntar todas as nossas fotos, cartões,cartas e botar fora. Aí sempre tem uma graçinha na fila do cinema, na fila do shopping, na entrada do supermercado,na listinha do MSN.Ele não vai deixar por menos, vai querer se vingar. Psicologicamente, vai beijá-la com veneno. Ela vai morrer, literalmente. Aí ele faz a moça se apaixonar mesmo sem querer,vão conversar sobre a vida,o climinha abafado dos últimos dias,”vamo tomar um sorvete”, te ligo,te levo pra casa. Vão tirar mil fotos, vão ao parque, vão levar o cachorro dela e não o meu pra passear, “te pego no trabalho”. A essa altura,a moça vai estar nas nuvens,deve ser daquelas que não se agüentam nas próprias pernas, carinhos e suspiros ao ar, perfume doce demais.Um dia e pimba! Começam a namorar.Mensagens de celular,poesias escritas,recados e janelinhas piscantes de emessene.”Amor amor que saudade”,apelidos adocicados e a outra vai se perguntar porquê não conheceu o paraíso antes, e se antes não era religiosa, vai começar a acreditar em deus.Ele é assim, sempre soube tratar bem as mulheres, a palavra certa,o toque certo na hora exata.Aliás, a hora exata se faz a qualquer hora quando o tempo simplesmente desiste de rodar. Até porque sempre foi assim.Ele é demais, como não se apaixonar.Compra flores,te chama de linda,guarda cheiros, reinventa, tira sabor do ar e leveza da água.E então,para ele não existirá ninguém mais..O Luís não sabe,não deve saber...bastam poucos segundos apenas.Apaixonável.Eu gosto,acho que a Graçinha também vai gostar.Não é possível que uma mulher em sã consciência não goste.

O gosto, o cheiro e a textura da pele, ele reinventa a percepção dos sentidos.Redesenha o caminho da carne,a linha que forma teu corpo, descobre o que te faz cerrar os olhos, entreabrir a boca.O que te dói, o que te excita.Aquilo vai excitar a graçinha também, estou certa.

Vão tomar banho juntos, primeiro ela.Ele te ensaboa com aquelas mãos grandes,delicadamente,sem pressa.Eu não sabia o que fazer com as mãos, a coisa toda me parecia um ritual sacro – onde eu sempre entrava pelada.O Luís descia os olhos,mordia os lábios e ia descendo o sabonete.Tinha muita água quente,eu entrava em êxtase.Fechava os olhos e levava as mãos à cabeça: era uma senha.A boca dele descia, abria caminho e eu sentia cada poro de sua língua destrocar a minha alma com uma força bélica invencível.A parede fria de azulejos brancos rasgava minhas costas.E eu não tenho medo de dizer que deixava o próprio corpo ali enquanto a alma voava sobre campos que nunca vi. É uma questão atemporal, metafísica, irracional. Voava e voltava várias vezes, sem sequer saber onde estava a alma e onde estava o corpo. Os dois só se encontravam quando ele, de repente, erguia-se, roçando o peito nos meus seios, querendo engolir a minha boca, com fome e sede.Ele sabia arrancar gemidos profundos, que eu segurava com todas as forças entre as narinas e o céu da boca. Depois me abraçava, e tinha no corpo uma leveza mágica, que eu cogitava ser levitação. E depois de tudo isso a gente deitava na cama, ainda ofegante, e tirava um sono mágico. Ah! Acordávamos com o cachorro acuando na porta do quarto, era o sinal de que estava na hora do passeio. A gente dava as mãos e saía com aquele monstro de quatro patas por aí. Sonhávamos em comprar alguma casa naquela rua mesmo, quem sabe aquela branca da esquina,com o jardim grande na frente.Eu sempre disse a ele que meu sonho era uma casa com jardim grande. É a minha inconsciente imagem de riqueza talvez,onde o monstrinho pudesse correr e cavar mil buracos. O resto dos dias seguintes passavam assim, numa penumbra de alegria e êxtase, orgasmo e carinho. Mas agora veja o meu caso e o quão ordinário é o destino. Não posso sequer dizer a ele que vou sentir a sua falta para onde quer que eu vá. Eu queria também pedir perdão por umas bobagens que fiz, uns desatinos,umas teimosias, umas coisas que falei esquentada do jeito que sou. Dizer pra ele que eu queria casar, ter três filhos e esperar ele na volta do trabalho.Dizer que ele sempre me fez sorrir, e que nunca senti tanto medo quando ele teve que fazer aquela cirurgia.E que tive a certeza de que queria ele pro resto da vida.

Mas agora eu não sei o que vai ser, não consigo me mexer daqui, estou morta. Pode ser que se me acharem aqui ainda hoje, ou amanhã, ele não vá querer se vingar olhando diferente para alguém na fila da locadora - muito menos aceitar o convite desse alguém pra assistir um filme qualquer com Liv Tyler. E nem vai querer sair com ela só de raiva de mim. Uma graçinha que, além de linda deve fazê-lo rir quando mais precisa.E nem é tão desatinada quanto eu.Ah, Luís! Não faça uma coisa dessas, eu não suportaria mais viver.



**p.s.: Nomes usados são meramente fictícios, qualquer semelhança blah blah..vcs sabem ;)

No mais puro delírio que a solidão provoca, descubro que a imaginação invade o corpo - porque já não cabe mais na mente. E, mesmo onde estou, distante de onde estás, me imagino ser forte o bastante para proteger-te.Te escondo entre meus braços e tudo o que sobra é sombra, e é questão de te olhar, é questão de querer passear a mão na textura do teu rosto.
E perdido é teu olhar quando quer ver o que eu vejo. E se te enxergas no brilho dos meus olhos, é porque dentro deles estás e dentro deles ficarás, até que os feche quando te beijar. Se é o silêncio a única distância entre nós, que assim seja, porque qualquer palavra é desnecessária.
Se com a ponta dos dedos encontro teu rosto, com a palma da mão o cubro. Com o peito te aqueço,com os olhos te caço. Com as pernas te enlaço com meu perfume te prendo. Se não te digo nada agora, é porque nada quero dizer. E se por ora somos mundos tão distantes, nos encontramos numa ponte de travesseiros.